Resenha: Tears For Fears - The Tipping Point

Muito mais que apenas uma reunião de velhos amigos

Resenha: Tears For Fears - The Tipping Point

Falar que o Tears For Fears foi um dos alicerces do Rock-Pop dos anos 80/90 ainda não é o suficiente para apresentar a banda. Roland Orzabal e Curt Smith representaram à época uma "fuga" dentro de um cenário repleto de grandes nomes, mas que nem sempre primava pela originalidade e diversidade musical e de conceitos.

Dentre tantos grandes hits temos "Everybody Wants to Rule the World", "Shout", "Advice for the Young at Heart", "Break it Down Again", "Head Over Heels"

Agora a clássica dupla se uniu para lançar seu primeiro álbum em 18 anos. O álbum intitulado The Tipping Point é mais do que apenas um álbum de reunião, é composto de letras emocionais e instrumentais soberbos, extravazando muita, mas muita emoção através das novas músicas.

The Tipping Point é composto por 10 faixas novas (13 na versão De Luxe), desenvolvidas ao longo dos últimos anos. Cada canção consegue tomar seu próprio caminho dentro da perspectivas do som, mas várias músicas compartilham semelhanças com o glorioso passado, e isso não é demérito nenhum. 

E ao contrário de vários artistas atuais que tentam replicar aquele som único típico dos anos 80, nossos queridos veteranos estiveram lá e são professores de mestrado nesse quesito, ainda trazendo modernidade dentro desse turbilhão de emoções em forma de música. Não só a banda traz de volta o icônico sintetizador, como também outros elementos eletrônicos combinados com intrincadas batidas de bateria e riffs de guitarra.

Podemos colocar da seguinte forma: eles nos mostram que são mais do que apenas veteranos na medida em que trazem seu som nas novas músicas, puxando-os para fora dos anos 80 e colocando-os no cenário musical atual. É difícil para muitos artistas veteranos ter essa capacidade sem parecer que estão requentando o que já foi sucesso,.

Porém, ao contrário de suas músicas desse passado de sucesso, que eram otimistas e cativantes, tudo soa mais sombrio, com uma grande carga de sofrimento. Durante os anos em que estiveram separados, Roland Orzabal esteve sempre ao lado de sua esposa, vitima de cirrose. Ele sofreu gradativamente a perda de sua esposa, já adoentada, mas que infelizmente não seguia os tratamentos com a adesão necessária. Muito do álbum foi impulsionado por essa perda, fornecendo algumas letras poderosas de perda e cura, bem como alguns instrumentais penetrantes.

No Small Thing abre o álbum com sua abertura sombria, composta apenas pelo violão. conforme evolui, o som eletrônico começa a se infiltrar e vai tornando-se acolhedora. A banda foi inspirada por artistas folclóricos mais antigos como Bob Dylan e Johnny Cash, que sutilmente marcam presença nos acordes da canção.

Chegamos em The Tipping Point, que em minha modesta opinião é um dos pontos mais altos do disco, fornecendo elementos pesados do sintetizador icônico e muitos outros instrumentos cruciais, como uma batida pesada e um riff de baixo no ponto certo. A inclusão de tantos instrumentos fornece um som intrincado, mas envolvente. A vibe eletrizante do instrumental não encobre e nem quer disfarçar a mensagem da letra: "O inverno acabou, eles logo irão embora / Deste lugar implacável / Para aquele espaço vago e distante / Onde a luz do sol divide o gelo", uma clara demostração do que Orzabal passou durante o período de assistência à esposa, antes de sua morte.

A terceira faixa do álbum, Long, Long, Long Time, trás uma suavidade e conecta-se ao indie-pop inspirado e com mais uma letra sincera. Orzabal reflete ainda mais sobre seu processo de luto com letras: "Engraçado como em todos corações / É a parte que você irá conhecer / Engraçado como o coração suporta / Deixando ir."

End of Night continua sua jornada de letras emocionais, e embora contenha letras tão tristes, acontece que é a música mais otimista do álbum com um ritmo de sintetizador zumbido e uma ótima batida na bateria.

Em mais uma canção em que Orzabal despeja muito sofrimento e certamente a mais melancólica do álbum, Please Be Happy está apoiada apenas num piano e violino esporádicos, e que flui em sintonia com a letra escrita por Orzabal. 

Trata-se de um álbum que levou anos para ser produzido, e o resultado está em cada detalhe sonoro. Os instrumentais são extremamente fortes em algumas canções, atingindo o ouvinte provavelmente da forma que foi pensada. E é inegável essa característica da dupla, não sendo nada surpreendente que ainda consigam trazer esse perfeccionismo carregado de emoções.

Creio que Orzabal e Smith agradarão seus fãs de longa data e terão uma legião de novos. Mais ainda: esses novos fãs terão o prazer de longas audições de todo o material dessa dupla que muito merecidamente tem já seu nome escrito na história do Rock-Pop com letras maiúsculas. 

Confira a tracklist:

01 - No Small Thing
02 - Tipping Point
03 - Long, Long, Long Time
04 - Break The Man
05 - My Demons
06 - Rivers of Mercy
07 - Please Be Happy
08 - Master Plan
09 - End of Night
10 - Stay

Versão deluxe:
11 - Let It All Evolve
12 - Secret Location
13 - Shame (Cry Heaven)

Por: Paulo Souza