Resenha: The Police - Synchronicity

A banda nos brindou, no fim da carreira, com seu grande clássico

Resenha: The Police - Synchronicity

The Police guardou o melhor para o final com Synchronicity de 1983, encerrando sua curta carreira de cinco anos e cinco álbuns com sua obra-prima. E embora o álbum tenha sido novamente coproduzido por Hugh Padgham, como em Ghost In the Machine de 1981, marcou uma mudança significativa para longe das influências dominantes do reggae/ska dos quatro primeiros álbuns da banda. O título vem da teoria da sincronicidade de Carl Jung, que acreditava que a vida não era uma série de eventos aleatórios, mas sim uma expressão de uma ordem mais profunda, o que levou aos insights de que uma pessoa estava embutida em uma estrutura ordenada e era o foco da mesma. O resultado final foi uma mistura potente, que não desagradou os fãs fiéis e arregimentando uma massa enorme de novos, com um álbum verdadeiramente grande – uma mix de música divertida, original, oportuna e cerebral. 

Como muitos grandes álbuns, Synchronicity nasceu de luta e briga. Os casamentos do baixista/vocalista Sting e do guitarrista Andy Summers haviam recém terminado e, após meia década de constantes turnês e gravações, o supostamente unido trio começou a entrar em conflito.

O grupo fez uma pausa em 1982 para iniciar projetos externos. Sting estava começando a conseguir papéis em filmes, enquanto Summers colaborou com o ex-guitarrista do King Crimson Robert Fripp no álbum instrumental I Advance Masked. O baterista Stewart Copeland compôs a trilha sonora do filme Rumble Fish, que gerou o single Don't Box Me In. Mas como cada membro encontrou seu próprio sucesso, isso só serviu para mostrar que entre os caras, como um grupo, já haviam resolvido que a morte da banda era logo iminente.

Eis então que nesse olho de furacão o grupo faz uma obra-prima final nascida do estresse do rompimento iminente. Não foi fácil, pois os três membros da banda gravaram suas partes em salas separadas para as faixas básicas e Padgham (Hugh Padgham, produtor musical britânico com trabalhos com Genesis, Phil Collins, XTC e Peter Gabriel, entre outros) adicionou overdubs subsequentes com apenas um membro no estúdio de cada vez.

O resultado é diverso e ousado, com as faixas mais experimentais do álbum carregadas na frente do lado A (os mais "experientes" sabem o que é!), e os "hits" reservados para o lado B.  A música contém uma infinidade de ritmos, do reggae, blues e africano ao pop/rock direto, enquanto o tema é sobre coisas passadas ou terminais e os assuntos migram do global para o pessoal.

Synchronicity I começa o álbum com um padrão sintetizado com um baixo de condução e batida de bateria. É uma peça bastante simples e direta (embora frenética) com algumas partes multi-vocais e harmonias de Sting que introduzem liricamente a teoria de Jung do "inconsciente coletivo". Walking In Your Footsteps segue com percussão nativa e uma boa melodia acima do mais estranho dos arranjos simplistas. As letras relacionam dinossauros extintos aos humanos modernos e ao tema então comum da destruição nuclear final da humanidade.

A primeira música do álbum a conter um arranjo um tanto tradicional é O My God, baixo conduzido por toda parte com um pouco de acordes de guitarra funk, algumas pinceladas de sintetizador leves, vocais fortes com pegada soul. A canção é uma verdadeira vitrine para Sting com o baixo, a letra cantada em uma voz angustiada, e o solo de saxofone em um final improvisado. Mother é uma composição de Summers, com um cruzamento estranho entre Velvet Underground e Alice Cooper. Os vocais de Summers são crus e ao mesmo tempo divertidos. Copeland ganha sua própria composição com Miss Gradenko, um retorno ao mix reggae/new wave da banda. Curta e deliberada com um grande baixo e guitarra muito na medida, mas eficaz, a letra fala de um romance no meio de uma burocracia comunista feita pela paranoia no Kremlin.

Chegamos em Synchronicity II, que é na minha opinião a melhor canção do álbum e a única música do The Police com um arranjo o mais próximo possível de um Hard Rock. Desde o início, com os vocais de Sting até as fantásticas texturas da guitarra de Summers, mudando de acordes para padrões de notas milimetricamente ajustados. O tom musical segue a letra de perto, que descreve o dia de trabalho de um homem e sua vida doméstica e a compara ao monstro aparentemente não relacionado do Lago Ness, tornando esta uma faixa título mais verdadeira do que Synchronicity I. No geral, a música alcançou o Top 20 em ambos os lados do Atlântico, sendo indiscutivelmente um clássico dos anos 80. 

O lado B abre com Every Breath You Take, com a guitarra de Andy Summers e uma rima simplista de Sting por cima. Temos também algumas notas de piano bem colocadas e Copeland mostrando grande contenção em sua batida de bateria. No geral, Every Breath You Take tornou-se um dos singles de maior sucesso de todos os tempos, chegando e ficando na parada da Billboard por nove semanas, a música ganhou como Canção do Ano no Grammy Awards de 1984.

King Of Pain é uma música simples que se transforma, acentuada por um pouco mais de rock puro. A canção mostra o gênio instrumental da banda e qualidade de produção de Padgham e contém uma guitarra de rock bastante tradicional (e excelente) liderada por Summers. Liricamente, Sting faz referência a dolorosas ocorrências cotidianas para simbolizar as frustrações da vida cotidiana como o narrador que vê seu destino como predeterminado. Wrapped Around Your Finger é uma balada clássica com excelente ambiente, com letras superiores que remetem personagens mitológicos e literários.

O baixo impulsiona Tea in the Sahara, e conclui o LP original. A performance de Sting é mais solo do que em qualquer outro lugar do álbum, com o baixo liderando o caminho e as letras baseadas no romance The Sheltering Sky. Uma longa introdução de bateria nos leva a Murder by Numbers, co-escrita por Sting e Summers. A música compara o poder político com o desenvolvimento de um serial killer.

Synchronicity alcançou o número um em muitos países e foi indicado ao Grammy como "Álbum do Ano". O The Police partiu pelo mundo em uma turnê de um ano, que terminou com um hiato que foi levou ao fim do grupo. O trio se reuniu em 1986 para gravar um novo álbum, mas depois de uma tentativa em que não existia coração, esse projeto foi abandonado. A banda não se reuniria totalmente até 2007, mais de duas décadas após o intervalo.

1.    "Synchronicity I"                                            3:26
2.    "Walking In Your Footsteps"                          3:36
3.    "O My God"                                                   4:02
4.    "Mother"      Andy Summers                          3:05
5.    "Miss Gradenko"      Stewart Copeland         2:00
6.    "Synchronicity II"                                           5:02
7.    "Every Breath You Take"                               4:14
8.    "King Of Pain"                                               4:58
9.    "Wrapped Around Your Finger"                     5:16
10.    "Tea In The Sahara"                                    4:11
11.    "Murder By Numbers"      Sting/Summers   4:34

Banda:

Sting - Baixo, vocal e teclado

Andy Summers - Guitarra, vocal de apoio

Stewart Copeland - Bateria, percussão e vocal de apoio 
 

Por: Paulo Souza